Sunday, October 26, 2003

SE146

A perseguição sexual começa em nível lingüístico. Mesmo hoje, com toda a liberdade de falar de sexo, continua verdadeiro, como sempre foi, que em todas as famílias honestas, normais, respeitáveis e dignas, NINGUÉM TEM PINTO E BUCETA.

Repararam nas frases? Jamais se diz os nomes amaldiçoados. É sempre "aquilo", "lá", "ele", "aí". "Menino, não mexa aí", "Menina, abaixe essa saia", "Não mexa embaixo".

NUNCA uma mãe dirá: "Tira a mão do teu caralho!", ou "menina, sentando assim, tua xoxota aparece", ou - quando é namorada: - "Não mexe na minha boceta". Jamais! TABU! TABU!

Os paradoxos se multiplicam. Esses que não tem nome - ou cujo nome, como o de Jeová, não pode ser pronunciado - tem mil nomes e mil faces, todos alegóricos, a maior parte grosseiros (mandioca, pau, cacete, peroba, ferro, pistola), muitos vegetarianos (pepino, cenoura, nabo, mandioca), frutíferos (banana), galináceos (pinto, peru, ganso) ou frios sortidos (lingüiça, salsicha, salame...), coisas nojentas (geba, borrachudo).

Na família e na sociedade a negação do pinto - hoje como sempre – ainda é fanática, e quando a criança começa a ter suas primeiras coceirinhas gostosas, quando ela não pode mais deixar de senti-lo, então ela o exibe escandalosamente, e seu gesto significa, muito claramente: "Olhem, eu tenho! O que é que eu faço com isso? Você tem? O que você faz com isso?

Por que vocês fazem cara de quem não tem? Mostra! Quer ver o teu!" E assim começa a bichice de todos. Todos os homens sofrem de uma vasta curiosidade em relação aos pintos dos demais - mas só eu tenho coragem de dizer isso. Sou macho!

Há poucas décadas veio se introduzindo sorrateiramente – sempre disfarçado - o termo pênis, tão asséptico (bem desinfetado, para quem não conhece a palavra); e tão ascético (aquele que mortifica a carne).

Quando a sua excelentíssima esposa, a vagina, é aceita pela família brasileira. Mas criança negada cresce como adulto renegado. Pau, cacete, ferro, pica (de picar) são nomes assaz impróprios para um órgão cuja função primária - pasmem, machões! - é acariciar. Cacete, ferro vara, etc. lembram incoercivelmente agressão pancadaria, briga.

Creio que, segundo uma lei fundamental das emoções, o tal, ao se ver tão maltratado, sentiu- se por demais frustrado, e a frustração - esta é a Lei - gera agressão. E eis o carinhoso instrumento da reprodução transformado em arma de ataque - de defesa - ou instrumento de tortura.

Mas voltemos ao caralho - que é o pinto agressivo do machão. Vamos fazer a psicanálise do infeliz a fim de compreender seu comportamento de delinqüente - ou o fato de ser tratado como se fosse. Falta de educação, dissemos. A deseducação do tal ocorre na rua, onde os moleques, todos meio tarados e muito ignorantes, trocam suas fantasias exageradas, grotescas e superexcitadas uns com os outros. Um troca-troca intelectual destinado a cultivar em todos o "perverso polimorfo" de Freud (ainda voltaremos a essa inveja dos adultos frente às crianças). Sabem todos os moleques das péssimas opiniões dos adultos - principalmente as mães - sobre o tal. É o perseguido, amaldiçoado, negado, desprezado e degradado da respeitabilidade - vimos. Logo, se os moleques se reúnem em seu nome, trata se - mal comparando - de uma Missa Negra, do cultivo de algo abominável e terrível.

O que pode nascer nessa atmosfera senão esse monstrengo tantas vezes acusado e condenado? O machão. Por ter seu pinto sistematicamente negado, ele acabou se fazendo somente um pinto, sempre aí, sempre duro, sempre se afirmando teimosamente - agressivamente.

Falo: você sabe que esse é um dos nomes respeitáveis e eruditos do famigerado? Etimologia grega - não é o máximo? Segundo mestre Jung, "falo" significa "luminoso" veja só. Parece que a mesma raiz grega se encontra na palavra "farol". Lindo, não é?

Aliás, ele também tem nomes bonitos, dados pelos que verdadeiramente o amam, como Lança de Eros ou Coluna de Jade.

Aí fica a sugestão. Na próxima vez que você der uma martelada no dedo, diga bem forte "Coluna de Jade". Uma certeza você pode ter: os

circunstantes vão ficar deveras espantados. Palavrão erudito!

O pinto é sempre o herói da anedota pornográfica - ele e suas andanas pelo mundo. As rodas de piadas é o resíduo da antiga molecagem de rua, as anedotas vão dizendo, em termos bem crus, tudo o que é proibido dizer. É o Eterno Moleque rindo, babando, de olhos brilhantes, ao mesmo tempo envergonhado.

E o sapo que, beijado, se transforma em príncipe? Poderia haver analogia mais feliz e mais didática? O pinto mole, pendurado, flácido, "nojento" e "desprezível" é o que todas as mães do mundo conseguem fazer a gente sentir quando a gente o sente. Um sapo, verdadeiramente. Mas basta que a princesa o beije para que ele se transforme em príncipe, ereto, garboso, rosado...

Quem é que acorda mesmo a Bela Adormecida? Vamos tentar nos por na pele de uma mulher. Desde que ela nasce ouve dizer, em palavras, mas principalmente em caras, tons de voz e olhares, que "ele" é seu maior inimigo. Cuidado com ele, fascínio e desgraça de todas as mulheres.

"Melhor, queridinha filhinha, que você continue adormecida na sua inocência. Você tem como sua primeira obrigação jamais pensar em uma coisa dessas. Isso não existe, viu? Durma, meu bem - e vê se vai morrendo aos poucos - é mais seguro do que querer viver".

E o caixãozinho de cristal - de paredes invisíveis mas á prova de balas - se fecha sobre a infeliz: os preconceitos de seu mundo são incorporados e transformados naquilo que Reich, em hora feliz, denominou Couraça Muscular do Caráter.

O que é esse caixãozinho de cristal? É toda a "proteção" da jovem contra o pinto. É toda a força que a jovem aprende a fazer - na marra! - a fim de não fazer o que ela mais deseja, o que mais quer e o que mais precisa. É a força das frases imbecis que todos repetem sem saber o que estão dizendo; frases, olhares, expressões de rosto (como são cruéis as faces maternas - e as de todos - quando representam a ideologia!).

(Ficam literalmente tomados pelo diabo, sem o saberem, e O representam - é claro que o diabo é Deus e suas imposições repressivas. Esta é uma colocação minha, e o pobre do diabo deve ter ficado ofendido em ser xingado de Deus, a Ideologia).

E, com medo do que dirão os cúmplices do pacto social, muitas ficam boazinhas em seus esquifes de cristal, até que o príncipe encantado – o Senhor marido, no altar da Igreja - se digne a acordá-las para o sacrossanto dever da divina maternidade, entregue pelo pai. Ai pode. Só um pouquinho - mas pode.

Quem põe na cabeça da moça é a mãe - no começo. Depois o pai ajuda – às vezes muito. Principalmente quando ele começa a cobiçar o broto que nasceu do seu pau...

(por J. Ângelo Gaiarsa)


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